O Barquinho Cultural

O Barquinho Cultural
Agora, o Blog por Bloga e O Barquinho Cultural são parceiros. Compartilhamento de conteúdos, colaboração mútua, dicas e trocas de figurinhas serão as vantagens
dessa sintonia. Ganham todos: criadores, leitores/ouvintes, nós e vocês. É só clicar no barquinho aí em cima que te levamos para uma viagem para o mundo cultural

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Tony Babalu: um músico à moda antiga

Tony Babalu lança 'Live Sessions II', com seis temas instrumentais (Foto: Lucas Altieri)

Tony Babalu é um desses raros músicos que sabem unir técnica e alma em suas composições, resultando em obras para se ouvir com atenção, calma, sem pressa. Seu mais recente trabalho, o CD “Live Sessions II”, lançado em agosto de 2017, traz seis temas instrumentais que passeiam por vários climas do rock, funk, soul, blues, em um apanhado de suas influências e daquilo que tem escutado desde que decidiu trilhar pelo caminho da música, ainda na adolescência, no início dos anos 1970.

Acompanham Babalu (composições, guitarra e direção geral) o tecladista Adriano Augusto, o baixista Leandro Gusman e o baterista Percio Sapia.
A banda: Leandro, Babalu, Percio e Adriano (Foto: Karen Holtz)

O novo CD sucede o “Live Sessions at Mosh”, de 2014, ambos lançados pelo selo Amellis Records e distribuídos pela Tratore e “construídos a partir de uma atmosfera vintage e orgânica que norteia todas as fases de sua concepção”. Isso se traduz na escolha do estúdio Mosh, de São Paulo, que mantém equipamentos, tecnologia e espírito dos anos 70, analógicos. “Algo que quase ninguém mais tem no mundo”, define.

Mais do que nostalgia, a decisão de gravar à moda antiga deve-se à concepção de seu trabalho atual, explica. “A música que eu faço tem uma raiz no improviso, que depende muito do estado emocional que você está”, adianta. As músicas foram gravadas quase “ao vivo”, para aproveitar a sensação do momento, exigindo perfeito entrosamento dos músicos. Não há emendas, overdubs, o que significa que cada faixa é um momento único.

Nesta entrevista – talvez seja melhor chamar de depoimento – ao Blog por Bloga, Babalu fala sobre como começou a tocar, as bandas de que participou, a cena rock nos anos 70 no icônico bairro paulistano da Pompeia, suas influências, inspirações e como vê a música atualmente.
CD traz na capa detalhe da Stratocaster 1973, presente de Wander Taffo


O começo de tudo

“Comecei com música no finalzinho da década de 60 – 69, 70, por aí. Comecei a aprender a tocar guitarra. Cresci num bairro aqui de São Paulo que é tradicional no rock, Pompeia. Tem muito roqueiro aqui, é até chamada de Liverpool brasileira. Isso facilitou. Daqui saíram Mutantes, Tutti Frutti, Made in Brazil. Sou de 1953, tinha em 1969 15, 16 anos, foi aí que eu comecei mesmo, vi Woodstock, gostava muito já de Beatles e Stones e comecei a pegar gosto pela coisa.

Comecei com violão e aí já peguei uma guitarra, meu negócio era tocar guitarra, todo mundo queria tocar guitarra. A grande influência nessa época era o Jimi Hendrix, o que ele tinha feito em Woodstock jogou definitivamente a importância do rock na guitarra. Apesar de o Jimi Hendrix ter morrido em 70, foi ele, mais outros guitarristas da época – Keith Richards, o próprio George Harrison, o [Eric] Clapton com as bandas dele, a guitarra era (é) o instrumento do rock. Como o piano é o instrumento do pop, a guitarra é do rock.

Aço: primeira banda de Tony Babalu (Foto: Arquivo)
Minha primeira banda profissional foi o Aço, o baterista era Rolando Castello Júnior, do Patrulha do Espaço, que existe até hoje e que existia antes do Arnaldo [Dias Baptista], ele que entrou na Patrulha e ele tinha aquela projeção, era o primeiro trabalho dele em banda fora dos Mutantes, depois dos discos solo que ele fez, então a Patrulha do Espaço ficou associada ao Arnaldo, mas a Patrulha do Espaço mesmo era Júnior, Dudu [Chermont] e Koquinho [Oswaldo Genari], que morava aqui na Pompeia. Dudu Chermont e Koquinho já faleceram. Mas antes disso a gente tinha essa banda, Aço, que tocava hard rock, mais parecido com a Patrulha. Aí nós entramos no Made in Brazil em 74, acabou acontecendo de a gente entrar os dois juntos.”

A cena na Pompeia na época

“Na época não tinham estúdios de ensaio, essa estrutura que tem hoje, essa coisa de ensaiar pagando, você tinha que ensaiar na sua casa, não tem conversa, e os amplificadores eram paredes, enormes, não existia ainda a cultura do cubinho, do amplificador pequeno, portátil. Então você tinha que ensaiar em casas que tinham garagem, incomodava os vizinhos, e tinham focos de ensaios aqui na Pompeia. Tinha a casa onde os Mutantes ensaiavam, a casa do Made, a do Pholhas, ali na Barão do Bananal, a casa do [Roberto Gurgel] Juba, que hoje é batera da Blitz, e as pessoas se encontravam nesses ensaios e tinha muita reunião na casa dos músicos, para ouvir música.

Ouvir música era o programa completo, era suficiente. Por exemplo: chegou um disco importado do Deep Purple, de alguém que não saiu no Brasil ainda, os discos demoravam para sair, uma defasagem de um semestre, isso quando eram fabricados aqui, muitos nem saíam aqui. Um disco novo era o suficiente pra você ter uma noite, chamava os amigos e a gente fazia audições, ouvia o disco faixa por faixa, os músicos comentavam, tentavam tirar, essa era a coisa aqui na Pompeia. Era um bairro efervescente, o assunto era música, tinham muitos músicos, todo mundo escutava música como prato principal.

Hoje, a música é um complemento. Você sai de casa vê um show, um teatro, faz outra coisa. Você precisa de mais de que uma música, ela atua mais como complemento de uma festa, de uma reunião, de uma noitada, um barzinho. Nessa época a música era o principal. Era o assunto, era o tema, eram as coisas que estavam acontecendo. O Brasil também era fechado.”

O rock no contexto da época

“Em termos de comportamento, não só aqui como lá fora, aqui era um reflexo. Como não tinha uma cultura de consumo, uma indústria de consumo, a maneira de se vestir de quem curtia rock and roll por exemplo, era agressiva, cabelo comprido, calça jeans, camiseta, tênis, eram coisas que estavam entrando na cultura do dia a dia, tamancos. Não só na maneira de vestir como na forma de falar, a cultura indiana estava entrando ainda, aquela coisa de incenso, de batas floridas, de macrobiótica, toda essa cultura indiana ainda era muito nova aqui, e era associada com os roqueiros.

Agora o regime político era fechado, era uma ditadura, e tudo que era fora do sistema incomodava. Então você corria o risco de ser hostilizado na rua pelo seu cabelo, você não podia fazer reuniões, juntar dez, 15 pessoas como se faz hoje porque a polícia ia lá ver se ali não tinha um foco subversivo, ou comunista, então as coisas se misturavam. Você veja: o rock é uma cultura da sociedade de consumo americana, ocidental, americana, inglesa, não tinha a ver com a esquerda política, por exemplo, mas no comportamento sim, na atitude, sim, era uma cultura de rebeldia e das artes, em geral.

Tinha, sim, que enfrentar sempre a sociedade, sempre explicar por causa da associação muito forte com o visual, o visual era muito fora do sistema. Você confronta o sistema, mas o que você propõe? Seria a pergunta. E não tinha uma sociedade de consumo.

A coisa começou realmente a abrir, melhorar, no meio da década de 75 para cá, quando o rock começou mesmo a entrar na cultura da música: Rita Lee, com 'Ovelha Negra', foi um dos primeiros discos do Tutti Frutti que rompeu a barreira mesmo, entrou com música em novela, e aí as coisas começaram a acontecer de maneira diferente. Quando eu comecei era bem apertada a coisa.”

O papel do rock na rebeldia jovem


Made in Brazil: grupo que está completando 50 anos de estrada e com o qual Babalu gravou 4 discos (Foto:  Divulgação)


“Desde o movimento da Tropicália, que não era rock, era uma confrontação ao padrão da MPB, desde esse final dos anos 60, do Tropicalismo para cá, o rock and roll era associado com a juventude rebelde, tem aquele fundamento político, mas não política de Estado, de regime, a política familiar, o conflito de gerações, que era o motor, o pavio da irreverência, da maneira de ser (‘eu não quero ser que nem meu pai, não quero fazer 40 anos’), aquela época do movimento da contracultura, hippie, amor livre, uma cultura antiguerra, os ídolos eram Jane Fonda, Peter Fonda, de filmes como “Sem Destino”.

Era tudo uma contracultura, contra aquela cultura estabelecida pelos padrões da sociedade ocidental, principalmente europeus da Inglaterra e dos Estados Unidos: a maneira de se vestir, a obrigatoriedade de você ter uma religião, de casar, todas essas regras rígidas de comportamento da sociedade. Por isso que eu digo que o rock está inserido num contexto de conflito de gerações, entre a moralidade da sociedade conservadora e uma sociedade liberalizante através da música.

Era isso, não tinha a questão política. Embora caminhasse no mesmo rumo das questões políticas, da contracultura na arte, dos regimes políticos alternativos, como o comunismo, o marxismo, o socialismo... toda essa cultura política de esquerda também acontecia na mesma época, mas a coisa da música, do rock, ela estava mais centrada no conflito de gerações: ‘eu não quero ter a vida que meu pai tem, por exemplo’, obedecer à mesma sociedade de consumo, ter a mesma situação, ou eu quero ser livre, entre aspas, viver sozinho, morar com uma pessoa sem casar com ela, romper essas regras de comportamento.

Aí que eu acho que a música, que o rock se insere. Meus pais deram um espaço muito grande, eu conheci Suzi aos 15 anos; eu não sofri internamente o conflito de gerações porque eu tive pais que realmente não se importavam com isso, não eram preconceituosos, conservadores, autoritários, sempre aceitaram as coisas numa boa, mas a música era basicamente uma tentativa de se expressar, de criar um padrão próprio de comportamento que não fosse aquele padrão certinho, politicamente correto que hoje está voltando a ser, mas aquele politicamente correto chato, moralista.”

Aprendendo a tocar

“Eu fui estudar violão com uma professora que era [a professora] da minha irmã, ela comprou um violão e largou mão, aí eu peguei o violão, a professora e comecei a ter aula, ela começou a me dar os primeiros acordes e quando eu comecei a aprender a tocar ela quis me passar ‘Meu limão, meu limoeiro’, aí foi a última aula. ‘Não é por aí’. Mas eu já sabia alguns acordes, a partir daí eu fui sozinho. Autodidata, de ouvir discos, tirar a música, tentar fazer como estava no disco e aí o ouvido ajudando, com amigos, assim que eu aprendi a tocar, com muito pouca teoria.”

Discos que influenciaram


O 'disco da banana': 1º álbum com o Made in Brazil


“Foram vários. ‘Revolver’ (1966), do The Beatles, aos 12, 13 anos; o ‘disco do bolo’ dos [Rolling] Stones – ‘Let it Bleed’ (1969) foi outro, mas aí a coisa realmente começou a ficar forte com o último disco do Jimi Hendrix, chamado “Band of Gypsys” (1970), com Billy Cox (baixo) [mais Buddy Miles, bateria), um disco ao vivo de 1970, e aí eu ouvi aquilo e disse, ‘vou tocar guitarra’, e fui atrás.

Um disco que também me marcou foi do Steppenwolf, na verdade mais uma música em um disco que tem ‘Born To Be Wild’, ‘The Pusher’, um disco de 68, 69. Depois vieram os discos clássicos, mas esses ainda são anteriores àquela famosa trinca que veio nos anos 70 – Led Zeppelin, Deep Purple e Black Sabbath. Esses, mais Grand Funk, Santana, todo o pessoal que tocou em Woodstock – The Who... Isso é tudo a formação básica.

O disco que me fez querer ser músico digamos que tenha sido o “Revolver” e o “Let It Bleed”, e também o “Beggars Banquet” (1968) do Rolling Stones; agora o que me levou a querer ser guitarrista foi o Jimi Hendrix. Eu era muito novo, e não conhecia, tinha 16 anos; quando eu conheci o Hendrix, esse disco, ele já tinha morrido. Woodstock (o filme) nem tinha passado aqui ainda. Ele morreu em 70, quando eu ouvi o disco ele tinha acabado de morrer praticamente, ele morreu em setembro de 70 e o disco saiu aqui no final de 70 começo de 71.”

Na estrada

“O Aço era um trio, não tinha música própria, a gente fazia o repertório dos outros, como The Who, Grand Funk. O primeiro disco que gravei foi com o Made in Brazil, o da banana, tenho até uma música nesse disco, a “Intupitou o Trânsito”, minha única parceira com o Oswaldo e o Celso [Vecchione], as outras músicas que eu tenho no Made são parcerias com o Oswaldo. Foi gravado em 1974.

Aí eu gravei os quatro primeiros discos do Made in Brazil, a fase dele na gravadora RCA: o ‘Made in Brazil’, homônimo, foi o primeiro, o Júnior [Rolando Castello Jr] participou desse disco, Cornelius [Lúcifer] é o cantor, um grande vocalista, que fez muita história, falecido há uns dois, três anos, aí teve ‘Jack, O Estripador’ (1976), ‘Pauliceia Desvairada’ (1978), que foi o disco em que tive mais participação como compositor, e o ‘Minha Vida é Rock ‘n’ Rol’ (1980), que foi o último que o Made fez por uma gravadora grande, convencional, depois viria a fazer outro, o ‘Deus Salva... O Rock Alivia’ (1985).

Eu continuei participando, mas já foi diminuindo de intensidade. Em 1980 eu participei do Festival Shell de MPB, da TV Globo, com a música ‘Cidade Louca’, e uma banda chamada Artigo de Luxo, fiz um disco com o Artigo de Luxo e essa música, mas a gente parou na primeira, não fomos classificados para as finais do festival. Aí entrei no Quarto Crescente, que o Percy [Weiss], ex-vocalista do Made in Brazil me chamou para fazer, tenho um disco com eles de 1981, fiquei até 85, 86, depois fiz outra banda, chamada Bem Nascidos e Mal Criados, que não teve disco, mas tocamos em todos os lugares alternativos, era uma banda com duas cantoras, mais punk rock. Toda essa produção mais tocando, não cantando.”

A fase instrumental

“Resolvi entrar mesmo no instrumental nos anos 2000, mais especificamente depois de 2010, que eu lancei esses dois discos. Nesse tempo eu fiz muita coisa como produtor, continuei tocando com o Made, até hoje eu toco, a banda está fazendo 50 anos e de vez em quando eu vou e faço uns shows.


Entre 2010 e 2012 formamos a Betagrooveband, com a Marina [Abramowicz] na bateria e um baixista que hoje está morando em Portugal, PV Ribeiro; fizemos um show até importante, que foi a comemoração dos 30 anos do Centro Cultural São Paulo, tem três vídeos desse show na internet. É uma banda que tem um repertório muito legal que eu ainda quero gravar em disco. É uma proposta de trio com uma cara mais antiga, mais de Cream, mais pesado, um som mais pulsante, mais para rock mesmo, funk rock, uma coisa mais forte mesmo, diferente dessas duas propostas que eu estou fazendo com o quarteto, que é um som mais maduro, de climas.


Eu sou uma pessoa que escuto de tudo. Eu toco rock and roll, mas gosto de funk, o funk com tradição do soul music, mais black mesmo, sou uma pessoa muito eclética com música, escuto bandas pop, sofisticadas, complexas, como Steve Miller Band, como o trabalho do Sting, o Weather Report, uma banda clássica de instrumental, da mesma forma que eu escuto Stones, Muddy Waters, John Lee Hocker, Chic, do Nile Rodgers, sempre gostei muito.

O Chic é uma disco music com uma proposta dançante, onde a guitarra faz uma coisa rítmica muito particular, e o tipo de coisa que o Nile Rodgers fez foi de romper fronteiras na música, porque com ele os temas começaram a ser feitos para discoteca mesmo nos anos 70, então tem aqueles temas longos, onde fica muito tempo sem acontecer nada, aquela pulsação em cima de um riff de baixo. Tanto é que uma das músicas do Chic da época, 'Good Times', foi uma das primeiras músicas de hip hop, os caras já começaram a fazer colagens, quer dizer, uma coisa influenciou a outra na música.

Então como eu sou uma pessoa de escutar muito, ecleticamente, o que eu mais gosto, que não sai do toca-discos, é o básico do rhythm and blues: Eric Clapton, Stones, e variações do classic rock, ZZ Top. Mas eu gosto de Police, outras coisas, e o resultado disso é que de repente durante muito tempo eu fiz músicas com bandas vocais, com cantor, com letra, e de repente caí na música instrumental assim nos anos 2000 pra cá.

Teve um primeiro disco feito em casa, chamado ‘Balada na Noite’ (2003), sem banda, em casa mesmo, com tudo eletrônico, mas já instrumental. Fiz um show no MIS em um projeto de música instrumental em 2007; a coisa foi meio que naturalmente se encaixando. Em princípio, não era a ideia de ser meu trabalho principal, mas acabou acontecendo de começar a dar certo, começaram a surgir temas instrumentais, em cima de tudo que eu ouvi e tocar como músico, pegar a guitarra e não se preocupar com a letra, com arranjo, com cantor, com a métrica da música, com tocar em rádio. Quando eu dei essa relaxada eu caí na música instrumental e falei ‘aqui é uma delícia, toco o que eu quero, faço o que eu quero’, e estou nessa e acho que vou ficar nessa muito tempo.”

O processo de criação

A Fender sempre por perto para captar a inspiração (Foto: Carlos Mercuri)

“O tema sai aqui em casa, geralmente. Eu mesmo construo uma base para mim mesmo, eletrônica, baixo, batera, teclado num estúdio que eu tenho, das antigas também, monto essa base com esse riff, essa melodia, e começo a fazer a melodia em cima e preparo para os arranjos, faço um arranjo básico da música inteira, fecho a música tudo sozinho, gravo para a banda a minha parte de guitarra tocando e a parte deles sintetizada, bateria eletrônica, baixo, só para eles saberem a harmonia e a grade da música.

Aí que a gente começa a música para valer. Mando aquilo para eles por internet, passo os links, eles ouvem, tiram e vamos ensaiar. Chegamos para ensaiar e aí é outra música. Porque você parte dali e aí cada um começa a pôr suas coisas, seus climas, a música começa a sair lá, mas a massa, a grade, a harmonia saem daqui.

Lá a gente começa a trabalhar e ela cria a forma final. Aqui ela tem três, quatro minutos, às vezes ela tem um minuto, é uma levada, um riff, e lá ela ganha a forma final. Mas como é baseada em improviso, porque eu tenho um sistema de trabalho – que acabou acontecendo naturalmente também – que é muito diferente da grande esmagadora maioria: que é aquela coisa que a música tem muitos trechos em que vale o que tiver na hora, se você tocar duas vezes a mesma música não vai sair o mesmo solo, não vai sair o mesmo teclado exatamente, não vai ser a mesma virada de batera; a gente improvisa e cada hora é uma leitura, tem grades, tem situações, convenções na música, melodias principais, e tem a largada pra solar, aí o que vale é o que acontece.

Tradicionalmente não se faz assim. Se faz um disco como: você vai, grava num estúdio, vai a bateria, aí você vai colocando a guitarra, outro instrumento, volta, faz overdub, põe duas, três guitarras, põe vários efeitos, várias coisas, vai fazendo, é um trabalho de pintura que você não faz em um dia, porque em um dia você grava a base. A minha maneira de gravar é completamente diversa disso, porque a gente já chega com as coisas e grava ao vivo.

Tem aquela coisa de ser uma pintura da hora, daquele momento. Nós fizemos vários takes, para aprovar um deles, não é aquela coisa de teve um erro um take, volta ele inteiro, não é consertar o erro na máquina, então a música tem dez minutos e se fosse fizer um erro, alguma coisa que não passa na guitarra, todo o take vai ser refeito. Quer dizer, um músico depende do outro nessa questão, isso faz com que a banda comece a ter uma integração, vale muito o emocional da hora que você está gravando. Escolheu o take, aí o resto que você mexe é no timbre, não nas notas. Não acrescenta mais nada nem tira mais nada o que está lá.

Essa forma de gravação é uma forma que é inusitada. É simultâneo, ao vivo. Por isso gravamos no Mosh, é um estúdio assim, que tem um equipamento que quase ninguém tem no mundo. Eles têm as máquinas, as mesas, os compressores, é um equipamento ainda dos anos 60, restaurado, com válvulas novas. É toda aquela atmosfera. Eu gravei o disco como se eu estivesse nos anos 70 mesmo. O Mosh tem esse equipamento, ele não acha aquele som no computador, ele acha aquele som no ampli da época, com válvula, com microfone, por isso tem esse sabor, porque o estúdio tem essa cultura também.

Esse que é o conceito dos dois discos, seria analógico. Tem aquela coisa de quem gosta dos discos de vinil ainda. É como se eu estivesse hoje fazendo a música dos anos 70. Isso não é algo que foi pensado para ter um diferencial, isso aconteceu por causa do que eu vivo mesmo.”

Diferenças entre os processos

Eu gosto dos dois [processos de gravação], eu gosto também da tecnologia, muito, para escutar. Mas para fazer, nessa proposta de trabalho, a música que eu crio prefiro fazer na moda antiga. Eu já trabalhei nos dois, tudo que eu fiz de gravação foi mais nesse processo de fazer compartimentadas as coisas, fazer sucessivamente, não simultaneamente.

Eu gosto também, é algo mais cerebral, que não necessariamente é frio, têm muitos resultados que você ouve e tem a impressão de que é vivo, a coisa realmente é quente, não perde a pulsação, mas é uma questão de opção, para eu fazer tocando guitarra prefiro fazer a coisa simultânea porque a música que eu faço tem uma raiz no improviso, que depende muito do estado emocional que você está. Você tem um padrão, obvio, mas, dependendo do estado emocional, do momento de sua vida, você coloca ali uma coisa que tem que ser ali na hora que você está sentindo a música ser executada por todos.

Nesses dois trabalhos que eu fiz no Mosh, pelo conceito do trabalho tem que ser simultâneo, tem que ser ao vivo, não veria de outra forma. Mas isso não quer dizer que eu não possa fazer um trabalho e gostar de fazer um trabalho nesse processo tradicional de gravação, porque é uma obra de arte com um processo de registro diferente, e é legal também. Mas isso pode mudar também.”

A música hoje em dia

“O que eu percebo é que tudo ficou extremamente segmentado, a oferta de música é escandalosamente maior, não só de música, como de informação, e não só em relação à música, mas também às artes, a tudo. A oferta é grande demais, a internet, a velocidade de processamento da informação cresceu tanto, a informação é tão rápida e tão abundante que tudo fica segmentado.

Então se você pegar a música agora tem 15, 20, 30 vertentes sendo consumidas ao mesmo tempo. São zilhões de bandas novas, artistas, trabalhos novos em todas as áreas da música, tudo disponível com qualidade HD, tudo fácil de ser corrigido, se você não canta bem, não toca bem tem um programa de computador que resolve a sua situação, então eu acho que a música caminha para a música ao vivo, para apresentação ao vivo, porque você está vendo a pessoa fazer aquela música na hora, aquilo passa a ser a única maneira autêntica, o resto que você escuta não sabe se é uma máquina que está tocando, se aquilo foi corrigido, se saiu de um ser humano, da cabeça do ser humano.

E a tendência é ficar assim. A própria música está sendo diluída pela oferta muito maior do que a demanda. Tudo é over hoje em dia. O que seria uma novidade? É um produto de consumo que não é só necessariamente a música. Hoje um artista de sucesso, um músico de sucesso tem, além da música, a coreografia, a dança, a imagem, a opinião, a atitude, como ele se expressa, que posição política ele tem, o que ele propõe, ele tem um monte de coisas que não têm a ver com música, que são o componente da indústria em que tudo é vendido, tudo é misturado em um conceito só e a música é um elemento; às vezes a música não é forte, mas o que entorna ela é. Então você vê uma coisa espetacular, mas tudo gira em cima da música.

Tudo ficou muito segmentado, muito compartimentado, e é difícil se encontrar nesse mar de informação para eu dizer o que realmente é uma novidade em conteúdo. Eu acho que o caminho da música, ela tende a ser valorizada quando ao vivo. Você vê o músico executar aquilo na sua frente, tem um contato físico com a música, não através da imagem, nem sequer do que você escuta no fone de ouvido, que passa a ser uma trilha para sua vida. Agora se você quiser ter contato com a música tem que ver o músico ao vivo, é a única forma de você ter um contato com a música na sua raiz pura, música pela música, pela construção, pela expressão da música.

Fora isso você está vendo um produto manipulado, que não necessariamente é ruim, mas que não é autêntico, não é cem por cento música, às vezes não é nem 50% de música. Você está vendo um produto que foi pensado, foi feito e você não sabe até que ponto a parte humana, fisicamente, tem de participação naquele produto. Claro que qualquer produto é humano em última análise, mas o que você está ouvindo, quem fez, foi um músico? Ou foi um músico que pensou e aquilo foi feito por uma máquina E isso já dá uma grande diferença.”

Espaço para música ao vivo

“Os espaços sempre foram o grande problema da música e das artes em geral. Nós estamos ainda em uma época de transição. Por exemplo: em 2008 não existia Facebook, de cinco anos para cá que você começou a ver vídeos, e o que você via no computador passou para o smartphone, isso há três, quatro, cinco anos. E isso praticamente foi um golpe mortal em coisas como fotografia, música. Isso afeta também a coisa do espaço, porque você passa a ter a vida no seu smartphone, então ficou difícil. Você tem alguns espaços alternativos, tradicionais, acho que sempre vai haver espaços, o que eu questiono é se com o tempo vai continuar a ter gente que sai só para ver música.

Por exemplo, hoje em dia a música não se faz mais em teatro. São poucos os espaços tradicionais para você realmente ter aquele contato com a música ao vivo. Isso é realmente um problema, porque os espaços passam a ser espaços onde a música não é o principal, é um complemento, que são os barzinhos, para o dono do bar interessa você entrar lá e consumir, beber e comer, o que ele coloca para você assistir é o gancho para você entrar, comer e beber.

Então tem várias outras coisas que não são música e que lhe atraem lá: o ambiente, a possibilidade de conhecer alguém, a maneira como você é tratado pela casa, a comida... Dentro de todo esse cardápio aparece a música e em muitos lugares nem isso, não tem nem a música. Então a gente não pode considerar isso um espaço para a música. O espaço para música deveria ser só para música, você entrar e assistir a um show.”



Como se ouve música hoje

“A quantidade de informação, do processamento de dados: quanto mais diversidade você tem na mão, mais você pode escolher, zapear, no próprio smartphone, e você está tão acostumado a ter um leque de opções que o tempo se comprime, você não fica em nenhuma, está sempre pulando.

Qualquer coisa que tenha cinco, dez minutos na internet é uma eternidade, não consegue ficar muito tempo numa coisa, porque todo mundo está publicando sempre alguma coisa, você nem precisa ir atrás de informação, elas vêm, sejam elas fake ou não. É tanta informação que acabou aquela coisa de você parar em alguma coisa como você saborear uma taça de vinho, ouvir um disco inteiro se torna raro.

Hoje se você consome na internet uma música, se você gosta de uma música você vai lá no iTunes e baixa a música, se gosta de três, para que você vai ter um disco inteiro se você só ouve no Spotfy. Se você quer ter o disco inteiro você baixa e deixa ali no seu pen drive, no seu iPod, o conceito de um disco, que tem 80 minutos ficou sem sentido.

Então o artista hoje lança músicas, não lança álbuns. Ainda existe o álbum, mas já virou uma espécie de catálogo, de brinde, de currículo do artista, o CD físico. E no futuro vai ser mais ainda, mas as pessoas ainda obedecem ao conceito de álbum mais como eco de que sempre foi assim, mas não tem motivo. O conceito de fazer um CD de 40 minutos - agora acabou de sair o CD do Chico Buarque - é um conceito aprisionado à quantidade de informação que cabe num CD físico.

Então o suporte físico ficou sem razão de ser. Estamos vivendo ainda um eco. Antes o artista tinha que apresentar um trabalho e não tinha essa rapidez. Se você quisesse ter acesso à obra de um artista você tinha que comprar o CD, tenha que ter o aparelho para tocar, hoje você não precisa carregar nada. Se não quero estar sempre conectado pode baixar e guardar em algum arquivo de memória, um MP3, e ouço offline. Então essa coisa física é que ainda dá suporte, e daqui a 50 anos, quem está nascendo dá valor pra CD?

Acho que ondas e ondas retrô [como a volta do vinil] vão existir sempre, mas o que vence no fim é a praticidade. O cara vê o vinil como uma novidade, começa a comprar, mas o vinil ocupa espaço físico e os apartamentos hoje em dia são de 40 metros quadrados.

Já não combina, o mundo segue para pouco espaço, otimização do espaço, nem HD externo, isso está sendo posto em cheque também, as pessoas estão colocando os back ups, as coisas importantes, tudo em nuvem. Nós ainda somos uma geração que viveu o analógico, e daqui a 20 anos? Que mundo que as crianças de hoje vão receber? Estamos ainda numa transição. E as crianças de agora? E daqui a 50 anos?

Eu parei no meu tempo, não é que eu acompanhe, que eu tenha raiva do mundo moderno, acho tudo muito legal, uso as coisas, mas eu acho que o conceito de disco, de álbum, de obra e até mesmo o conceito de artista já é uma coisa misturada no meio de milhares de informações, montanhas que você tem; é difícil você fazer alguém fiel, e vai ser ainda mais difícil daqui pra frente, porque você pega uma garotada aí e onde eles vão se apoiar?

Vejo a garotada aí descobrindo Beatles, achando uma maravilha, baixa toda a coleção, fica seis meses ouvindo, e depois acabou, porque é uma coisa finita, mas que viveu 13, 14 anos sem saber o que era. É muita coisa, e hoje as pessoas não querem perder tempo, é tanta informação que a pessoa é condicionada a escolher toda hora: o que eu faço, onde eu gasto meu tempo.

Fora isso a informação vem atrás de você pelo WhatsUp. Claro que isso – o excesso de informação – vai levar as pessoas a valorizarem, por isso que tem esses movimentos retrô, elas começam a descobrir o valor.”




Links:

Site oficial


Show Instrumental Sesc Brasil


Documentário no SescTV


Canal oficial no Youtube


sábado, 12 de agosto de 2017

Peça discute a violência sexual contra a mulher

Espetáculo “Nunca mais... Coração de mulher” fica em cartaz aos sábados no teatro Maria Della Costa até 30/09

A peça “Nunca mais... Coração de mulher” está em temporada até 30 de setembro no teatro Maria Della Costa, no bairro Bela Vista, na capital paulista. As apresentações são sempre aos sábados, às 19h, com ingressos a 50 reais (e 25 a meia-entrada). O espetáculo teve pré-estreia em março deste ano em um teatro no bairro do Ipiranga, zona sul de São Paulo, passou por uma sala na Universidade Metodista, em São Bernardo do Campo, e está desde o último dia 5 de agosto neste espaço no Bixiga.


O texto de Ilder Miranda trata da violência sexual contra a mulher, de uma forma sensível e contundente, nas palavras de seus realizadores, a Companhia O Tom da Graça. Segundo a diretora do espetáculo, Rita Ivanoff, a personagem, Paula, vítima de violência sexual, “vai em busca de sua autoestima, de sua autoafirmação, de renovar sua capacidade de enfrentar o mundo, de olhar esse mundo de novo com alegria, com prazer, e de tomar sua vida com as próprias mãos”, disse a diretora em entrevista recente.


“Um dos objetivos de trazer um tema pesado como esse é falar mesmo sobre isso. A gente acredita que, quanto mais se falar sobre isso, mais vai deixar de ser um tabu e as pessoas vão conseguir denunciar mais, entender que têm outras pessoas iguais por perto, e que têm uma certa força para lutar por direitos, por leis, e para que a sociedade, de maneira geral, fale mais sobre o assunto”, afirma Rita na entrevista.

De acordo com Lize Nascimento, que divide o palco com Julieta Nóbrega, a peça busca “fomentar a reflexão sobre a cultura do estupro, que atinge homens e mulheres, e buscar o empoderamento feminino a partir dessa reflexão.”

Sinopse:

"O espetáculo Nunca mais...Coração de mulher retrata o universo feminino, propondo uma reflexão sobre a violência sexual contra a mulher, e de forma sensível e tocante, leva o público a interação com a personagem. Paula se desdobra em reflexão e emoções provindas de acontecimentos que deixaram marcas profundas em sua alma. Calou-se por instinto de preservação e, após anos de segredo, surgem memórias carregadas de medo, vergonha, nojo, raiva, prazer e ódio. O que fazer com essas lembranças remotas? Esquecer não é possível. Ciente disso, entre a ferida e a possibilidade da cura, vem a coragem, que surge da fragilidade do coração de uma mulher, fazendo com que a protagonista reviva esse passado sombrio, angariando força necessária para expurgar as dores que a acompanharam silenciosamente por quase toda a vida. É chegada a hora de libertar-se dos fantasmas e angústias com os quais conviveu, empoderar-se e dar um novo significado para sua história."


Espetáculo: Nunca Mais... Coração de Mulher
Todos os Sábados às 19h
De 5 de agosto a 30 de setembro de 2017
Local: Teatro Maria Della Costa - Rua Paim, 72 - Bela Vista, São Paulo
Telefone: (11) 3256-9115
Inteira: R$ 50,00
Meia: R$ 25,00
Duração: 45 minutos
Classificação: 14 anos


sexta-feira, 30 de junho de 2017

Juliana Lima comemora 20 anos de carreira com show no Parlapatões

A cantora, compositora e instrumentista Juliana Lima comemora os 20 anos de carreira com o show “Aquariana” nesta quarta-feira, 5 de julho, no Teatro Parlapatões. O espetáculo contará com o repertório do disco e DVD homônimos, o mais recente lançado por ela, e canções de seus outros trabalhos, e terá participações especiais de Daniel Pessoa, Val Mulusk, Hosana Bastos, Ana Wick, Helena Elis, Milena Castro e Vagner Bandeira.

A apresentação será às 20h e os ingressos antecipados, a R$ 20, podem ser adquiridos no teatro (Praça Franklin Roosevelt, 158, Consolação), de terça a domingo, de 14h às 22h - informações pelo fone (11) 3258-4449. No dia do show, o preço dos ingressos será R$ 40.


Sobre o evento, diz Juliana Lima: "São 20 anos de trajetória dentro da música, 6 CDS e 1 DVD gravados, muitas parcerias, turnês na Argentina e na Europa! Tantos amigos feitos através dessa bela caminhada! Não tenho nada do que lamentar ou me arrepender, só agradecer por poder ter vivido tanta coisa bacana, e torcer para que eu possa prosseguir fazendo o que amo: cantar, compor, produzir e tocar o coração das pessoas com a música por muitos e muitos anos!”

Juliana Lima nasceu em Santo André (SP) e começou a cantar ainda criança, lançando o primeiro disco, “Procurando um amor”, aos 14 anos, em 1997. Em 2002, grava “Raios de Sol” e, dois anos depois, “Tudo & Mais”. Em 2007, lança “O Dom” e, em 2013, “Aquariana”, com produção do cantor Thiago Varzé, que já trabalhou com músicos como Max Viana, Marcelo Mariano e Pedro Mariano.

“Aquariana” foi lançado em DVD em 2015, captado durante apresentação na casa Ao Vivo Music, em São Paulo. O DVD foi finalizado com recursos obtidos por meio de financiamento coletivo, pela plataforma Catarse.

Com mais de 350 composições realizadas, Juliana Lima fez, em 2014, sua primeira turnê internacional, pela Argentina, tocando em Buenos Aires e La Plata. Em 2016, fez um tour pela Europa, se apresentando em Madri, Dublin, Milão e Lisboa.

Sua música possui uma mistura de ritmos com a característica do povo brasileiro que define as diversas influências recebidas desde a infância (MPB, samba, bossa nova e baião).

Paralelamente à carreira solo, Juliana Lima participa do trio feminino de forró Beijo de Moça, com Cacá Molgora e Ana Wick. O trio acaba de lançar o primeiro CD, com composições próprias.

No vídeo abaixo, Juliana e banda cantam "Aquariana", em show do lançamento do DVD:





Leia mais sobre Juliana Lima nos links:

Juliana Lima lança DVD "Aquariana" com show no Ao Vivo



Siga Juliana Lima nas redes sociais:



Facebook: Oficial Juliana Lima


Instagram: oficialjulianalima

Twitter: julimacantora

Snapchat: ju_limaoficial


sábado, 10 de junho de 2017

Gui Moscardini canta a diversidade paulistana em seu primeiro disco

Cantor e compositor lança “Coisa Boa a Gente Espalha” dia 14/06 em show no Teatro Viradalata


Guilherme Moscardini busca transmitir boas energias em seu primeiro trabalho. (Foto: Gabriel Arruda)
Guilherme Moscardini tem 24 anos, nasceu no bairro da Liberdade e vive no Butantã. Quando garoto, sonhava em ser cineasta, mas, ao ouvir o amigo Ari Oliveira tocar violão, ficou encantado e quis aprender. Não tanto pelo tocar, diz o artista em entrevista ao Blog por Bloga, mas mais pelo fato de o amigo estar tocando uma música própria. “Eu sempre tinha coisa pra falar e não sabia como fazer isso e foi na música que consegui”, conta. Ele tinha 8 anos e o pai “exigiu” que fosse estudar violão erudito – “para aprender direito”.

“Foi uma experiência que me assustou um pouco; não esperava aquilo, queria aprender três acordes e sair tocando. Era muito distinto do repertório que eu conhecia, mas fui gostar muito tempo depois, porque é difícil você falar que não gosta de Debussy [o compositor francês Claude Debussy – 1862-1918], sendo que Debussy é cinema; o cinema foi feito por esses compositores e esses compositores foram feitos pelo cinema”, explica, citando a sua primeira paixão.

Gui conta que logo que começou os estudos do instrumento já saiu compondo suas letras e, em pouco tempo, a criar músicas. Aos 13, 14 anos, já gostando do que fazia, começou a mostrar suas composições. “Meu principal professor foi a composição, a coisa de tentar, errar, buscar as coisas no violão”, define. O disco, diz, tem músicas que ele compôs aos 16 anos, meio sem saber o que estava fazendo, mas com uma complexidade que ele se deu conta  assim que passou a entender melhor de música.

Filho de pai fotógrafo e mãe artesã, sempre escutou muita música em casa. A mãe, carioca, cresceu e aprendeu a sambar na Escola de Samba Salgueiro e, por isso, sempre ouviu muito samba e MPB em casa. O pai também era fascinado por música, só que ele também ouvia Beatles, jazz. O irmão, Felipe, produtor executivo do disco, o apresentou ao forró, ritmo pelo qual acabou se apaixonando. “Tanto que hoje meu mestre, que eu tenho como mentor, é Dominguinhos, o cara que eu mais venero musicalmente”, acrescenta. No ambiente doméstico, ainda, havia a presença de André Busic, que ele chama de “tio de consideração”. Busic foi trompetista da Traditional Jazz Band e é pai dos garotos da banda de rock Dr Sin, Andria e Ivan Busic.

À diversidade rítmica que recebia em casa ele adicionou a multiplicidade de estilos que a cidade de São Paulo oferece e que lhe inspira em suas criações. O disco mistura à música popular brasileira ritmos africanos, bolero, samba, salsa, frevo e outros gêneros. “Quando garoto, ouvia muito rock e um dia escutei o Lenine cantando o ‘Jack Sou Brasileiro’ e aí me deu a sensação de que dá pra juntar… E desde então comecei a procurar coisas semelhantes”, lembra. “Essa coisa de colocar ritmos latino-americanos, africanos veio de dentro de casa também, por minha mãe frequentar várias religiões.”

Sobre a influência da cidade em que nasceu e vive, Gui explica: “Muito dessa variedade do disco, dessa diversidade, é por conta da cidade em que vivo. São Paulo é muito tradicional às vezes, mas, se você prestar atenção, acha muita coisa. Aqui tem muita festa, tem a do Boi na Raposo Tavares, no Morro do Querosene, tem o Maracatu na Heitor Penteado… Tem de tudo aqui, muita riqueza”.

Guilherme tem se apresentado em bares, hotéis, hostels, tocando suas composições e a de outros músicos. Como Marcos Valle, João Nogueira, Gilberto Gil, João Bosco, Chico Buarque, entre outros. É formado em produção musical pela Universidade Anhembi Morumbi e estuda canto popular na Emesp Tom Jobim (Escola de Música do Estado de São Paulo) e ministra aulas de violão na Associação Atlética Banco do Brasil.

Participou em 2012 do programa Sr. Brasil, da TV Cultura, comandado por Rolando Boldrin, de show com Nailor Proveta no Auditório Ibirapuera e do Circuito Municipal de Cultura com o show GilJoão&Chico. Criou a trilha sonora do documentário “Toda Reza”, do Coletivo Urucum, exibido em 2015 no Itaú Cultural, compôs e arranjou canções e trilha sonora da peça musicada “Branca de Neve e Zangado”, dirigida por Mira Haar e com direção musical de Renato Bellini, participação na peça musicada “Livro de Ouro”, com direção de Geraldo Rodrigues, e atuou no espetáculo musical “Miranda por Miranda”, de Stella Miranda e Tim Rescala.



Sobre essas atuações no cinema e no teatro, ele diz: “Compor pra mim é um desafio. Fazer as canções da peça musicada foi uma experiência incrível, nunca imaginei que iria cair em musicais; depois de atuar na peça da Stella Miranda caí mais ainda no backstage fazendo as músicas do ‘Branca de Neve…’. Foi um desafio e uma diversão”.

Ele também participou de festivais de música com abrangência nacional apresentando as canções de sua autoria “Coisa de Garoto” e “Coisa Boa a Gente Espalha”, entre os quais o Festival de Canção de Andradas (MG), Festival Internacional de Cantautores de São Luiz de Paraitinga (SP), Festival da Canção de Mogi das Cruzes (SP), CPV Music Festival (SP), Evento Impulso Apresenta (SP), Sofar Sounds (SP), Palco Museu da Imigração (SP), Auditório Ibirapuera (SP).

A respeito do mercado e espaço para o músico independente, ele vê a necessidade de as pessoas se unirem, como crê que seja no universo sertanejo. “A galera do sertanejo deu muito certo porque eles são muito unidos, é o que me parece, eles se ajudam muito. Acho isso muito legal e no tipo de música que eu faço acho que a galera está começando a criar um pouco de consciência nisso e mesmo no independente a galera está conseguindo trabalhar”, afirma.

“O que eu vejo para o mercado é que acho que tinha que ter espaço para todo mundo. Sertanejo, funk, tem que estar aí, mas tem que ter espaço para todo tipo de música. Infelizmente, ao que me parece, as grandes mídias não estão tão interessadas em divulgar isso ainda, mas acho que, se a própria galera da música se juntar e entender que não é uma rivalidade, que o negócio é de fato se um trabalhar vai ter trabalho para o outro, em algum momento vai acontecer”, acredita.

Nesse sentido, ele demonstra que não se prende às exigências do mercado, seguindo com sua criação independente do que o mundo “mainstream” exige. “Se for falar de algo que não é verdade para mim, ou eu saio da música ou vou fazer outro tipo de trabalho, tipo backstage, que não apareça tanto. Se fosse só pelo dinheiro, então não teria por que aparecer, mas também respeito todo mundo que faz, é trabalho, se a pessoa escolheu aquilo, é a verdade dela, eu acho digno, mas não é a minha verdade. Eu adoraria lotar um estádio, mas eu sei onde estou, no começo.”

E seu trabalho, define, já se revela pelo próprio nome do primeiro disco, “Coisa Boa a Gente Espalha”. “Fiquei bem preocupado quando escolhi porque as pessoas poderiam achar que eu estava querendo dizer que meu som é bom, mas depois vi que fazia todo o sentido essa frase, porque quando mentalizo algo, eu eu mentalizo pelo outro, porque eu sei que quando você estiver bem eu vou estar bem; quando eu tiver pensamentos positivos, eu vou atrair coisas positivas”, crê.

O disco, acrescenta, fala de amor de diversas maneiras, e não propriamente o amor de um casal. “Falo do amor que tenho pela minha mãe, e pode ser o amor que você tem pela sua mãe, e falo de sorrir e o amor já está implícito ali, a própria música que eu fiz pra minha parceira, a Jhessica, ‘Plano Contínuo’, é uma música de projeções, é aquela coisa de você estar ali com seu parceiro mas você não sabe o que vai ser amanhã, mas projeta coisas com aquela pessoa, almeja, e tem o lance da compreensão, de sair de minha visão para poder entender o que o outro está enxergando para a gente entrar em um consenso, aquela coisa que o Gil fala: a curva generosa da compreensão.”

Disco tem colaboração de 23 músicas e participações muito especiais


“Coisa Boa a Gente Espalha”

O trabalho de estreia de Gui Moscardini conta com participações especiais da cantora Assucena Assucena, da banda As Bahias e a Cozinha Mineira; Renato Braz e Maíra da Rosa. O disco tem 12 faixas, sendo dez delas compostas e arranjadas por Gui Moscardini (‘Quando Entrar’ é assinada por Adriano Girelli e ‘Do Alto do Morro’ é de Raphael Cortezi).

Além das participações vocais, “Coisa Boa a Gente Espalha” teve colaboração de 23 músicos. O baixista Sizão Machado colabora na faixa “Sonho”. Os arranjos foram assinados por Raphael Cortezi e Gui executa o violão em todas as faixas. A dupla também assina produção de todo o disco.

O show de lançamento será no dia 14 de junho, quarta-feira, às 21h, no Teatro Viradalata (Rua Apinajés, 1387 – Perdizes). O show terá a participação de Barbara Rodrix. Os ingressos estão à venda a partir de R$ 20 no site do Ingresso Rápido.

O disco digital está disponível gratuitamente nas principais plataformas de música, como Spotify, Deezer, Apple Music, ITunes Store e YouTube. O disco físico também estará disponível na Livraria Cultura e pela Amazon.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

O escritor da Avenida Paulista

O escritor Eduardo Lages convida quem passa pela famosa avenida a conhecer um livro novo todos os dias

Por Patrícia Kawakami

Eduardo busca na Paulista inspiração para as histórias de Jaime
Você já andou pela Avenida Paulista? Se a sua resposta for sim, sabe que, além de ser uma das principais avenidas de comércio da capital, também é um lugar que atrai todos os públicos, proporcionando lazer, diversidade e cultura. Mas você já tentou ficar o dia inteiro, sentado em uma mesa, no meio da calçada, para escrever um livro? O escritor Eduardo Lages (25) viveu essa experiência. Seja sob sol ou chuva,  todos os dias ele vai para a Paulista tirar inspiração para dar vida ao personagem “Jaime”, protagonista de suas histórias.

Parece loucura alguém escrever um livro em uma avenida tão movimentada e barulhenta, mas Eduardo conta que, na verdade, foi assim que conseguiu parte de sua inspiração: “ Tinha muito medo de não conseguir escrever aqui, com muitas pessoas passando e com tanto barulho, mas foi ao contrário, as pessoas passando, o barulho, as situações que vejo aqui, elas ajudam muito a escrever, porque elas trazem uma inspiração que, se eu estivesse trancado em casa, acho que não teria”.

Inicialmente, sua carreira de escritor não começou diretamente na Paulista. Para escrever o seu primeiro livro, “Querido Jaime”, Eduardo escrevia durante os intervalos do almoço na agência onde trabalhava, rotina que durou cerca de sete meses. Após concluir seu livro, passou a vendê-lo na Avenida Paulista, onde começou a escrever o segundo, com uma versão mais ampliada do primeiro.

O primeiro livro conta a história do personagem “Jaime”, um senhor de idade que vive apenas dentro de  casa, sem nunca colocar os pés para fora. Entretanto, chega o dia em que é forçado a sair, e acaba se perdendo pela grande São Paulo.  Com a frase: “ Já conheceu um livro novo hoje?”, Eduardo divulga seu trabalho sem qualquer patrocínio financeiro, tendo contato direto com o seu público.

Todos os dias, faça sol ou chuva, ele está lá
Sobre como é vender seu trabalho de forma independente, Eduardo conta a experiência que vive: “Independência assim ela é relativa, porque a gente sempre depende de alguém, de um prestador de serviços, de alguém que te ajuda (...) Então sou muito grato a todas essas pessoas, por isso não posso falar que sou totalmente independente. Mas em termos de ideia sim, e não teve ninguém financiando o meu trabalho, eu banco tudo sozinho, e foi muito bom (...) Não é só o trabalho de escrever o livro, você tem que editar o livro, tem que diagramar o livro, tem que correr atrás da gráfica, tem que vender o livro. Então é muito mais trabalhoso ser independente, mas é muito mais recompensador também. Eu tenho contato direto com o público, as pessoas que vêm aqui e compram o meu livro depois voltam e me falam o que achou, tudo isso é muito bom.”

Além da divulgação de seu livro na Avenida Paulista, Eduardo também tem projetos para expandir a literatura urbana em outros pontos pela cidade, com novas histórias e novos livros. Para quem quiser conhecer mais sobre o trabalho desse escritor inovador, é só acessar sua página no Facebook, Venha conhecer a história do “ Querido Jaime”!

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Aline Maly mostra sua bossa em “Me Diz”

Primeiro CD da cantora e compositora paulistana será lançado dia 20/11 

Ela começou a cantar aos 7 anos; aos 10, primeira composição
A cantora e compositora Aline Maly começou a cantar aos 7 anos de idade no coral da igreja que frequentava. O pai apresentava programas religiosos no rádio, de modo que a música era uma constante em sua casa.

Tomou gosto pelo cantar e, depois de participar de vários corais, aos dez anos começou a compor. A primeira música composta foi “Raio de Sol”, completada três anos depois. O talento se impôs de vez e ela não parou mais de compor.

Estudou canto no Senac e teoria musical na Ordem dos Músicos. Tem composições gravadas por vários artistas, de vários estilos, do gospel ao sertanejo. Suas preferências musicais são Diana Krall, Stevie Wonder, Caetano Veloso, Jorge Vercillo e, claro, bossa nova.

Depois de participar de vários grupos, fazendo backing vocal, partiu para a carreira solo. Cantou em teatros – outra de suas paixões – e na casa de espetáculos Estrada Mix. E agora está lançando seu primeiro CD, totalmente autoral, “Me Diz”.

Gravado nos estúdios Hiper Show e no ER, de Catanduva (interior de São Paulo), a produção, independente, tem alguns arranjos de Elton Ricardo, músico radicado em Catanduva. Aline é acompanhada por uma banda só de meninas: Lilia Garcia (violão), Lilian Rodrigues (piano), Beatriz Lima (baixo), Si Medeiros (percussão), Daniela (bateria) e Anna Araujo (violino). “Eu sempre achei bonito  mulheres tocando; e eu me sinto muito bem com elas”, diz.

As músicas de Aline Maly expõem sua paixão pela música, especialmente a bossa nova, e as letras surgem de conversas suas com amigas sobre o cotidiano, as impressões sobre as coisas da vida. E falam de amor, desamor, entrega, espera. O clima é todo bossa nova, tanto nos arranjos como na forma de cantar, suave, levemente rouca às vezes.

CD é todo autoral (fotos: Divulgação)
Mesmo antes de lançar seu CD, o clipe de “Me Diz” – que dá nome ao disco -, postado no YouTube e no Facebook, a tornou conhecida mundialmente, tendo sido visto no Japão, Canadá, Argentina. “Um mês depois de ser postado, comecei a dar entrevistas e receber convites e, em pouco tempo, cheguei a 5 mil amigos no Facebook”, afirma. O clipe tem já mais de 10 mil visualizações no YouTube.

Aline começa a agenda de shows de divulgação do CD em janeiro. Além do disco físico, o trabalho estará disponível nas plataformas digitais. “Estamos ensaiando as músicas com a banda e, como é só de meninas, quanto melhor estivermos preparadas, melhor, porque é uma banda só de meninas, o que se destaca, por isso temos que tocar muito bem, as músicas têm que soar de forma muita perfeitas, para que saiam bem bonitas mesmo”, explica.

É esperar para ver.

Enquanto isso, abaixo o clipe de “Me Diz”. Outras canções podem ser curtidas em sua página no YouTube:


sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Barbara Rodrix dá a cara a tapa em seu novo CD, “Eu Mesmo”

Lançamento do disco será nesta quinta, 17/11, no Itaú Cultural (SP), às 20h, com participação de Ceumar e Tuco Marcondes; a entrada é franca

Filha de Zé Rodrix se redescobre em novo trabalho (fotos: Divulgação)
A voz é quase um sussurro... Quase pueril. “Ouça o silêncio que deixa a alma livre pra cantar”, diz em “Venha”, dela e de Luiza Possi. E é isso: é um disco para se ouvir no silêncio da sala, do quarto, da casa de espetáculos... Enfim: um disco para se ouvir (e sentir) com atenção. Deixar esses quase sussurros penetrarem nos ouvidos, deixar-se envolver pelos arranjos delicados, nobres, minimalistas, intimistas...

Barbara Rodrix se redescobre em seu novo CD, “Eu Mesmo”, que é seu segundo gravado, mas o primeiro lançado efetivamente. O primeiro trabalho, “Ninguém Me Conhece”, foi gravado quando ela tinha 16 anos, com produção de seu pai, Zé Rodrix, mas não foi lançado – porém está disponível na plataforma Soundcloud.

A cantora e compositora acompanhava o pai nas gravações em estúdios desde os 3 anos de idade, mas só mais tarde teve consciência do artista que ele era. Na época, Zé Rodrix estava afastado da carreira de músico – desde a morte de Elis Regina (19/01/1982) – e se dedicava à publicidade. “Eu cantava com ele nos estúdios, mas em casa ele não cantava; mas não posso negar que meu despertar para a música veio da influência do ambiente em que eu vivia, pois cresci no meio musical”, explica Barbara.

A percepção de que música era o que queria fazer vem quando, aos 11 anos, ganha um violão. “Aí eu disse: esse é meu instrumento”, lembra. Foi estudar na Escola Livre de Música (ELM) e já começou a compor. Aos 15 anos, entrou no estúdio com o material que havia composto nesses quatro anos, sob supervisão e produção do pai, e daí saiu “Ninguém Me Conhece”.

Com o pai, que produziu seu primeiro trabalho, quando ela tinha 15 anos

Já o novo trabalho teve um processo diferente. Ela começou a se apresentar na noite, em bares como o Tom Jazz, e montando o repertório a partir de como as músicas funcionavam no palco. Foi também, como ela define, um período de redescoberta. Sem a presença do pai – que morreu em maio de 2009 -, Barbara foi se redescobrindo como compositora, como artista, tomando as rédeas da própria obra, escolhendo os parceiros, decidindo sobre os arranjos. Coisas que a experiência acompanhando Zé lhe valeu muito.

“Esse disco, para mim, tem quase um significado de dar a cara a tapa porque ele todo eu que escolhi tudo, o voto de minerva era meu”, explica, sem deixar de considerar todas as pessoas que estiveram envolvidas nele. “Por isso o nome do disco é ‘Eu Mesmo’, que, além de ser uma música do Paulo Novaes, fiz questão de deixar no masculino porque é um eu mesmo que engloba muito o eu mesma mulher, eu mesmo ser humano, todo mundo que participa do processo, o universo do que eu faço parte. Um processo muito maior e que engloba muito mais gente. Todas as músicas do disco dizem algo que eu quero dizer.”

Novo CD: testado no palco
O CD, predominantemente autoral, traz parcerias com as cantoras Bruna Caram e Luiza Possi - filha de Zizi Possi -, que participa da faixa “É, Foi Você”, além de releituras de duas canções do seu pai: “Eu Não Sei Falar de Amor” e “Olhos Abertos”. Outros parceiros são Ricardo Soares e Elder Braga, além de interpretar “Rãzinha Blues”, de Lony Rosa, e a faixa título, de Paulo Novaes. O disco foi gravado no estúdio Gargolândia e mixado na Trama.

Barbara faz o lançamento de “Eu Mesmo” na próxima quinta-feira, 17 de novembro, às 20h, no Itaú Cultural - Avenida Paulista, 149, Estação Brigadeiro do Metrô -, com entrada franca (os ingressos têm de ser retirados uma hora antes do espetáculo). No show ela estará acompanhada da banda com quem gravou o disco, formada por Breno Ruiz, no piano; Igor Pimenta, no contrabaixo; Fernando Daminelli, na bateria; e Federico Puppi, no violoncelo.  Haverá ainda as participações especiais de Ceumar e Tuco Marcondes.


A seguir, principais trechos da entrevista concedida por Barbara ao Blog por Bloga:

Influências e o despertar para a música:

“Quando nasci, meu pai estava longe da carreira, ele se afastou logo depois que a Elis [Regina] morreu, mas continuava com produções, inclusive com publicidade, e desde criancinha eu cantava com ele em estúdio de publicidade. Difícil dizer se tive influência dele ou não, porque era o meio em que eu vivia, de alguma maneira era o meio artístico, ouvia as músicas dele, mas não via ele cantar em casa, era uma coisa do passado dele; quando ele voltou a compor, foi quando eu comecei, meio que começamos juntos, aos 11 anos, um influenciando o outro. Sempre vivi nesse meio artístico, com os amigos dele, houve uma influência, claro. O despertar foi natural, sempre foi uma criança afinada, a diversão da minha vida era ir ver meu pai gravar, cantar, saía da escola e ia direto para o estúdio e amava aquilo. Sempre tive muita influência em casa, sentava no piano, foi acontecendo aos poucos. Descobri de fato que queria fazer isso da vida quando ganhei um violão, aos 11 anos, e disse: ‘esse é meu instrumento’. Comecei a tocar, fazer as primeiras músicas, meu pai ajudava no violão (que também tocava um pouco). As primeiras músicas eram bem mais infantis, a primeira tinha um refrão que falava: ‘eu quero ser aquilo que ninguém foi/ não quero ser só mais um/ quero simplesmente ser diferente/ incomum’. Existia em mim essa força gigantesca de ser uma compositora, tinha todo esse romantismo de ser artista. Depois comecei a compor mais e são essas que compus dos 11 aos 15 que fazem parte desse meu primeiro disco. Estudava violão na ELM, depois fui estudar canto com a Tatiana Parra, cuja mãe era amiga de meu pai, fomos crianças próximas, apesar de ela ser um pouco mais velha, e hoje estudo canto popular no Emesp [ Escola de Música do Estado de São Paulo].”

Sobre o novo disco:

“Esse disco foi um pouco diferente o processo dele. Começou o disco com shows, fazendo o repertório, vendo o que funcionava, descobrindo de fato o que a gente queria falar, como a gente queria falar. Coincidiu com uma fase de minha vida de redescobrimento. O primeiro disco foi produzido pelo meu pai e a minha carreira artística sempre teve o aval de meu pai, artisticamente, era uma pessoa para quem eu sempre perguntava o que eu poderia fazer, para onde eu poderia ir. Foi um redescobrimento porque agora tenho eu que saber o que faço, como faço, do que eu gosto. Foi um processo longo, que, vendo agora, vejo que começou desde a morte de meu pai. Um processo de composições, de encontrar novos parceiros, porque até então os meus parceiros eram os mesmos de meu pai. Agora era encontrar novos parceiros, o que eu queria dizer, saber se eu achava aquilo bom. Começamos a fazer esses shows e comecei a sentir a segurança de que eu estava no caminho certo, de que era aquilo que eu queria dizer mesmo, com todas as parcerias. Porque eu não faço letras, eu gosto de fazer música. Ou eu faço a música e a mando para alguém que eu acho que tem a cara dela ou eu musico letras. O desafio é encontrar esses parceiros, encontrar essas pessoas, que é muito difícil você encontrar alguém que diga aquilo que você quer dizer, é um encontro de fato, um encontro de mundo, então foi esse o processo.”

Sobre a proposta do disco:

“O nome do disco Eu Mesmo, que, além de ser uma música do Paulo Novais, que é um superparceiro, irmão, e dar nome ao disco, eu fiz questão de deixar no masculino porque é um Eu Mesmo que engloba muito o eu mesma mulher, eu mesmo ser humano, todo mundo que participa do processo, o universo do que eu faço parte. Um processo muito maior e que engloba muito mais gente. Todas as músicas do disco dizem algo que eu quero dizer. Regravei uma música de meu pai, ‘Olhos Abertos’, que a Elis gravou no mesmo disco que tem ‘Casa no Campo’, e poucas pessoas conhecem essa música; eu fiz questão de a gravar porque o recado dela é tão lindo, fala de algo que as pessoas precisam tanto hoje em dia, de amor, de amar umas às outras, independente do amor romântico, amor pelo ser. Foi uma decisão muito difícil de a regravar, porque a Elis a gravou, acho que só tive essa coragem porque é de meu pai.”

Sobre o processo de criação do CD:

“A gente se apresentou bastante antes de gravar, em 2014, no Tom Jazz, e em 2015 entramos em estúdio e gravamos ao vivo, como se fosse um show, todo mundo junto, cada um numa sala, a gente quis se aproximar muito de como o disco foi concebido no palco; como ele tinha sido concebido todo ao vivo, a gente queria que ainda existisse esse frescor, porque de fato o que eu mais gosto na música é o show, porque a música é um ser vivo, está em mutação o tempo inteiro; então cada vez que eu canto uma música ela se ressignifica; o que mais me deixa ansiosa com esse trabalho é subir num palco e fazer ele e fazer, fazer.”

Abaixo, clipe de “É, Foi Você”, dela e Luiza Possi:



Sobre as diferenças entre os dois discos:

“Esse disco, para mim, tem quase um significado de dar a cara a tapa, porque o disco inteiro eu que escolhi tudo, o voto de minerva era meu. Chamei o Breno Ruiz para produzir comigo, as ideias de arranjos eram minhas e ele me ajudou a organizar isso, com seu olhar supercompetente, então não tem nada no disco que eu desgoste ou que eu não tenha escolhido; mesmo sendo ao vivo, tem muitas ideias de arranjo de todo mundo da banda, mas não tem nada que eu não tenha aprovado e que não seja eu. Então para mim é muito dar a cara a tapa: se você não gostou, lamento, é isso que eu tenho para dizer. É um disco que eu fiz exatamente como eu queria. É tudo eu. Lógico que a experiência de ter entrado em estúdio com meu pai sete anos atrás colaborou muito, inclusive profissionalmente, realizar aquilo que está em nossa cabeça de artista, que a gente viaja muito na maionese, fica um negócio. Muito importante para mim, que sou independente, termo de que nem gosto muito, porque a gente é que mais dependente de todos, depende de todo mundo. Mas tem coisas ali que a gente quer, imagina, tipo uma orquestra, o que é impossível, financeiramente, aí você busca chegar ao mesmo lugar de um outro jeito, esse olhar mais prático. E ver também meu pai produzindo valeu muito a experiência. Gravei as vozes ao vivo, não tem nenhuma edição. Então, a experiência de ter estado em um estúdio esse tempo todo, desde os meus 3 anos gravando, com certeza ajudou a fazer isso.”

Sobre sucesso, aceitação:

“Uma coisa que eu ouvi sempre de meu pai: a única maneira de você não agradar ninguém é querer agradar todo mundo. É muito mais fácil você se agradar e eu tenho muito essa consciência. Tenho uma visão de que em algum momento meu público e eu vamos nos encontrar. Eu me agradando, fazendo o que eu gosto, as pessoas que gostam disso vão me encontrar em algum momento, talvez seja mais demorado do que se eu tivesse tocando na Globo, na Nova. Mas acredito que isso vá acontecer em algum momento.”

Como Barbara Rodrix se define:

“Me defino como uma pessoa que não tem mais medo da opinião dos outros. Importante que você acredite e agrade a você mesmo, sem agredir ninguém, sem fazer mal, mas é obvio que a resposta do público alimenta também o lado artístico, não tem ninguém que não goste de elogio, mas prefiro me alimentar de ouvir um elogio de uma pessoa que amou aquilo que eu também amo a ouvir um milhão de elogios de algo que eu não ame.”

Como vê o atual cenário musical:

“Muita gente reclama da cena musical de hoje em dia, mas tenho a sorte de circular num meio musical em que conheço muita gente fazendo coisa muito boa; hoje a internet possibilita isso: a gente conhecer pessoas que não se limitam à grande mídia, pode ir atrás de muita gente que tem feito muita coisa boa; gosto muito de procurar novas coisas e se procurar você acha; tem quem faça coisas ruins, mas que pode ser boa para alguém, é a democracia, o que é ruim para mim pode ser bom para o outro; temos que encontrar outros meios de divulgar o trabalho das pessoas que não se encaixam no quadrado da grande mídia.”


"Eu Mesmo" está disponível na íntegra no YouTube:


sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Juliana Lima mescla MPB e rock em novo single, “Bem Mais”

A cantora, compositora, instrumentista e musicoterapeuta Juliana Lima lança o single “Bem Mais”, de sua autoria, com videoclipe disponível na plataforma Vevo e nas plataformas de streaming digital como Deezer, Spotfy, iTunes e Applemusic desde 4 de novembro.

“’Bem Mais’ fala da questão de as pessoas criarem ideias umas das outras e de perto elas não serem nada daquilo que imaginamos, então faço o convite para que se conheça o outro de verdade, e que se descubra coisas que jamais poderíamos imaginar. Tudo isso dialogando com a superficialidade que é o mundo de hoje, onde as pessoas criam as máscaras, e querem passar uma imagem diferente da realidade delas”, define a cantora.

Quem assina a produção é Fernando Quesada, baixista das bandas Shaman e Noturnal, que já produziu artistas como Sepultura, Ira e Fly, unindo dois universos bem diferentes, o rock e a MPB, chegando a um lugar bem mais ousado e instigante.


O clipe conta com a participação do ator e cantor Bruno Caselli, integrante dos Trovadores Urbanos, e é dirigido por Diego da Mata, com produção executiva de Juliana Cranchi. Figurino e maquiagem são assinados por Carolina Domichilli e Val Candido responde pelo hair style. O clipe conta com patrocínio exclusivo de Licota Moda, com o apoio da EM&T e da Escola Oficina.

Curtam o clipe:





Mais sobre Juliana Lima no Blog por Bloga:

Ela tem o dom

Juliana Lima lança DVD 'Aquariana'


quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Iucema Suzi: Uma voz romântica de Sergipe

Iucema Suzi canta histórias de vida, amores que se foram e que vêm, expondo seu sentimentalismo (Fotos: Arquivo Pessoal)
A cantora e compositora sergipana Iucema Suzi lança no começo de novembro seu primeiro trabalho autoral, o EP “Em cada nova estação”. Com seis canções, quatro de sua autoria e duas da parceira Iraiane Alves, com melodias e produção de Sergio Silva e Júnior Gonzo, o disco trafega por vários ritmos e estilos, como pop rock, reggae, MPB, sempre temperados pelo romantismo que a caracteriza e por onde ela decidiu trilhar.

Natural da Estância, Iucema começou a cantar profissionalmente aos 18 anos, após perceber, cantando em karaokês e festas, que era isso o que queria da vida. O início se deu em bandas de forró, estilo, no entanto, com o qual não se identifica. “Apesar de ser nordestina, não me vejo como cantora de forró”, afirma. Isso transparecia ao introduzir, em sua interpretação, um pouco de MPB, já adiantando o caminho que iria seguir.
Carreira começou em bandas de forró, mas MPB falou mais alto


O romantismo e o gosto pela MPB vêm de berço. Filha de um saxofonista, que toca na igreja evangélica que frequenta, Iucema cresceu ouvindo boleros em casa e seu coração foi tocado por artistas como Elis Regina, Maysa, Nelson Gonçalves, Rosana, Vanusa. Atualmente, ouve bastante Marisa Monte, Vanessa da Matta, Ivete Sangalo, Cláudia Leitte, o que a fez até pensar em se aventurar pelo axé. Mas novamente a MPB falou mais alto.

“Esse disco segue a linha romântica, com músicas que falam de histórias de vida, canções que tocam a alma, falam de amores que se foram, se perderam, se acharam. Ele transpira romantismo, porque reflete o que sou, uma pessoa muito sentimental, que chora por tudo”, define-se. A veia compositora revelou-se nas poesias que escrevia, mas jogava fora. Até que o amigo Sergio as leu e a incentivou a transformá-las em canções.

“Em cada nova estação” é a música carro-chefe do EP, com letra dela e melodia de Sergio Silva e Júnior Gonzo. Um clipe foi produzido para adiantar o que vem por aí. “No EP a canção estará com arranjo mais completo, com a introdução de mais instrumentos, mas a base é a mesma”, adiana a cantora. Depois de lançado o EP, Iucema pretende trabalhar em sua divulgação nas radios e correr o Brasil apresentando o trabalho. São Paulo, garante, está no roteiro e ela pretende aparecer por aqui em dezembro. Aguardamos ansiosos.

Abaixo, o clipe de “Em cada nova estação”.